14 de agosto de 2011

Quem é ela? II


O amor é uma forma de prejuízo


Embora minha capacidade mental fosse além das expectativas para uma garota da minha idade eu tinha desejos que condiziam com desejos adolescentes, o que eu não podia negar era que eu queria um amor, bem eu não precisava amá-lo, na realidade ter um cara pra aparecer do seu lado nessa merda de fase é como sair dos becos escuros e anônimos de um colégio, mas precisava ser o cara certo.
Precisava ser bonito? Bem, até que não seria mal, isso é um tanto quanto importante para causar a inveja necessária para ser falada por aí. Precisava chamar atenção com o estilo que deveria ser novo. Precisava ser inteligente? Se ele não falasse de futebol, carro e mulher o tempo todo, para mim já era suficiente. Bom mesmo seria se ele nem muito falasse me pouparia tempo e tempo era o que eu não tinha muito para perder, afinal eu precisava…  Eu não precisava nada, eu não tinha nada pra fazer. OPA! Você deve estar se perguntando: – Por que você agora não quer ser anônima? Ou parecer com uma sombra e continuar nas sombras por aí? A verdade é que eu descobri algo em uma dessas últimas conversas em que participo como ouvinte, que fez com que eu pensasse, eu sou melhor que todos eles, ou pelo menos tenho mais armas que eles, e um tanto mais de dignidade, foi isso. Foi isso ou foi o fato de que finalmente alguém me notou. É meu posto de sombra estava ameaçado. E isso tinha tudo a ver com o “amor”, o amor é uma forma de prejuízo, quando ele chega algo sempre se perde, você perde seu dinheiro, seus amigos, seu tempo, suas opiniões, suas vontades. O ministério da saúde adverte amar faz mal a saúde mental, provoca crimes passionais e enormes prejuízos irreversíveis. Tudo bem, claro que eu nunca amei antes, amava meus pais, sim meus pais são pais bacanas, em casa é tudo tranquilo. Mas e aí? E o amor-paixão, o fogo que arde, o descontentar se descontentemente. Se o amor é isso prefiriria eu então ser amada que amar. Perdi a conta de quantas vezes, nas sombras, vi garotas chorarem por seus amores, pelo cara que transou com ela e nem lembra seu nome, pelo garoto que ela ama desde sempre e nem sabe que ela existe, e pelas garotas. Semana passada vi uma das piriguetes chorando porque a peguete dela agora quer experimentar coisas diferentes, segundo ela, ela cansou de manter um amor escondido, e agora quer um garoto pra exibir por aí. Pois é, fidelidade não é só não trair é também continuar. Essa fulana não sabia disso. E vi garotos chorarem também. Alguns garotos choram, são poucos. Adolescência é uma fase confusa e indigna, feliz aquele que sai dela, por que existem pessoas que nunca a deixarão. Voltando ao nosso prejuízo, pra alguém me notar deveria ser por descuido, o problema é que eu não o havia notado, um garoto novo, sempre causa fofocas e já tinha ouvido falar muito dele e ô ele era bem além do que eu ouvia nos comentários. Ele era o cara que eu esperava.
Na manhã em que isso aconteceu, eu tinha me atrasado para a primeira aula, fiquei esperando o sinal lendo “Os Miseráveis” de Victor Hugo, estava entretida demais pra notar algo, e alguém sentou do meu lado, abaixei os óculos escuros discretamente e o vi sorrir. Eu não sabia como agir, será que deveria sorrir? Falar? Na duvida virei o rosto, ele ficou sem graça e disse: -Esse  livro aí era meu sabia? –Como assim?Eu peguei na biblioteca. – Eu doei pra lá. – Então, já não é mais seu. –É, mas mesmo assim é um bom livro. –Verdade. –Olha só estamos no meio dos miseráveis (apontando para as garotas que passavam no corredor) E ele sorria, tinha em si uma falsidade assistida para aqueles miseráveis e por que tinha falado comigo?  -Como é seu nome? –Carol. –Eu sou o Caio. Tem aula de quê agora? –Literatura. –Acho que você perdeu sua aula, não? –É. –Tô te enchendo? –Não. –Tão monossilábica. –Hum… Não sabia o que fazer, ele era o que eu esperava, cada medida, e a boca, era desconcentrante. Eu queria beijá-lo. Sim como queria. Não resisti enquanto ele falava sobre de como tinha se atrasado pela manhã. Eu olhava a boca. Eu queria beijá-lo. Todo meu corpo pulsava pra isso e o sinal tocou. Ufa! Finalmente. –Tchau. –Te vejo no intervalo? –Pode ser. –Onde te encontro? –Eu te acho. Claro que não o acharia, o acharia e achei, mas não fui até ele. Fui pra casa com a cabeça girando com fome e algo mais… Tá, e também de pensar no Caio, era a primeira vez que eu me interessava por alguém. E eu realmente não sabia nem como, nem o que fazer. Foi quando a campainha tocou.

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